Os estágios de maturação dos ciclos da vida
Quando pensamos em astrologia, logo imaginamos que os signos estão correlacionados às constelações siderais, as quais deram origem há milhares de anos aos signos por estarem pareados no céu com as estações do ano. Apesar dessa percepção ser a mais corriqueira, este é um engano do pensamento leigo, pois os signos estão na verdade relacionados às estações do ano e seus processos, enquanto as constelações se dissociaram dos signos ao se moverem pelo espaço sideral - na precessão dos equinócios ao longo de centenas de milhares de anos. É por isso que existe uma grande diferença entre a astrologia tropical, que trabalha com a construção dos signos vinculados às estações do ano e a astrologia sideral, que considera o céu no espaço por si mesmo, em suas posições de planetas e constelações como são, ao se moverem pelo espaço sideral. E é aqui que surge um grande salto de consciência para quem começa a estudar a astrologia como ela é usada e difundida hoje em dia: usamos e estudamos a astrologia tropical e sua associação com as estações do ano, a qual divide igualmente cada um dos 12 signos do zodíaco em 30 graus cada, formando e fechando assim a mandala exatamente nos 360 graus.
A mandala astrológica então é dividida em quadro etapas de construção da realidade, equivalentes a cada uma das quatro estações do ano e sua maturação da natureza. Esse processo está impregnado na natureza, mas corresponde a algo muito além e que faz referência à experimentação e aos estágios de maturação da existência, seja em níveis naturais e na dinâmica dos 4 elementos, seja na experiência humana e suas possibilidades de desenvolvimento. Aqui vemos a associação entre primavera e a expressão, entre verão e a experimentação, entre outono e a integração e, por fim, entre o inverno e a transcendência - até recomeçar tudo novamente do zero: estações climáticas e processos de vida. Se podemos perceber que os ciclos de desenvolvimento do clima seguem a cada estágio anual um processo de surgimento, ápice, declínio e dormência, podemos igualmente observar que os signos traçam no céu esse mesmo passo a passo, nos presenteando com símbolos próprios a cada nível interno de maturação das estações e a cada mudança de estação, nos equinócios e solstícios. São processos que transbordam a vivência da natureza como ela é e que são para além do humano, mas que chegam como referência e alegoria de como entender a vida e seus estágios universais de maturação da existência. Natureza e vida humana são basicamente duas formas similares de a vida transbordar em experimentação do ser.
Primavera - Áries, Touro, Gêmeos: expressão
Quando o ser brota para o mundo em todo seu potencial
Aqui surgem o equinócio de primavera, o grau zero do signo de Áries e o surgimento de um novo processo na existência. São todos uma forma de a vida começar e se expressar, sair do seu estágio de dormência e acordar para o mundo. Na natureza surgem os primeiros brotos, as primeiras flores e na vida humana equivale à infância e sua forma pura e expressiva de existir. Neste ponto a vida se expressa, sai da semente e surge como entidade independente daquilo que veio antes e a permitiu surgir. O solo está fértil após um longo inverno em que houve um nutrir da base onde a natureza ressurge, a dormência serve justo a isso, para nutrir o solo e prepará-lo para um novo semear e para um novo recomeço de tudo. No signo de Áries a vida surge e segue rápido, um rompante de afirmação, força de vida e expressão de existir. Quando a natureza chega no signo de Touro já vemos o estágio mais pulsante da estação, no qual as flores tomam conta e espalham fertilidade aos quatro cantos. Aliás, não só fertilidade mas beleza, encanto e cores, como um convite a novamente sairmos de casa, passearmos pelas ruas e apreciarmos a natureza e seu acordar da vida - com a temperatura mais amena e agradável, uma vontade renovada surge de acolher as novas possibilidades de estar no mundo. Quando chegamos ao signo de Gêmeos o calor já está mais forte, porém instável, com chuvas e ventos, as flores já são menos abundantes, mas aqui neste estágio existem muitas trocas e muito movimento pelas ruas: é tempo de compartilhar com o outro tudo o que plantamos e colhemos nos últimos meses produtivos da primavera. Neste ponto do ano foi quando surgiu o escambo e posteriormente as vendas de alimentos e artigos desenvolvidos por cada família, ao partilhar pelos povoados as suas melhores ofertas.
Verão - Câncer, Leão, Virgem: experimentação
Quando surgem os desafios e conquistas externas ao ser
Entramos aqui no verão, a partir do solstício de verão (o dia mais longo do ano) e o início do signo de Câncer. Na vida corresponde ao estágio mais pulsante, em que ousamos viver e experimentar as múltiplas possibilidades de existir: no desenvolvimento humano equivale à adolescência e suas experimentações típicas. Muito embora, no momento em que o signo de Câncer está no céu, vemos um nível mais introspectivo e enraizado na estrutura familiar de se viver esta experimentação da vida. Aqui é quando curtimos a calor crescente e as chuvas de verão, e também quando aproveitamos o nosso lar e o entorno familiar para além das bordas da casa - é quando curtimos o jardim e a horta, o gato e o cachorro, o passeio no bosque com familiares e um banho de chuva refrescante, quando tomamos banho no lago, rio ou piscina, andamos de bicicleta e nos reunimos para um jantar a luz de velas e do luar. No alto verão, o sol já está escaldante e vivemos o signo de Leão, imponente e exibido, vestimos (muito) menos roupas e curtimos os acessórios: chapéus, óculos escuros, colares e bolsas. É tempo de curtir os passeios que saem do circuito familiar e buscamos nos exibir em festas, cinema, bares e encontros. Quando chega o signo de Virgem já estamos um tanto cansados daquele calorão e da curtição, é tempo de organizar a vida de novo para a chegada da nova estação e para quando for hora de focar em estar em lugares fechados ao abrigo do frio. Ainda está quente, mas já sentimos um ventinho fresco e uma noite mais amena de novo, nos convidando a preparar compotas e reunir ervas, guardar reservas de comida para o frio e deixar a casa bem limpa e organizada de novo.
Outono - Libra, Escorpião, Sagitário: integração
Quando os aprendizados são assimilados no interno do ser
Entramos no outono e vivemos o equinócio de outono como um momento de retorno ao lar e integração de tudo que foi vivido nos últimos meses - no desenvolvimento humano corresponde à adultez: a vida adulta com suas responsabilidades e assentamento de vivências. Toda aquela vida pulsante começa a pedir abrigo interno e trazer para dentro a assimilação e assentamento da alma junto ao entorno que pede calma. O signo de Libra surge como moderação de tudo, pé no freio da vida e ponderação de cada ato, passo e gesto: é a vida mediando o eu e o tu com justa medida. Aqui nada se excede, nada se transborda e tudo se releva, o meio termo está sempre no meio. Mas quando quem surge é o signo de Escorpião, não há tanto jeito ao lidar com o outro, mas há muito mais desejo e profundidade, mais impulso e mergulho em como tudo é por dentro, nas entranhas de existir. Neste estágio o assentamento da alma é muito mais psíquico e menos social, por vezes sombrio e cheio de silêncios, assim como é na natureza: percebemos uma névoa sempre no ar, um silêncio de existir e um aprofundamento na própria terra, em querer se recolher, após a colheita final dos frutos e sementes para os meses que virão. A terra aqui vai aos poucos se encolhendo e deixando um tom mais tenebroso no ar - é a chegada do frio e seus assombros. Em Sagitário vemos um signo que busca integrar a vida de um forma mais impessoal e metafísica, busca entender de filosofia, religião e geopolítica, busca sair dos confins da mente como recanto e extrapolar em aprendizados mais amplos, sobre como é viver e sobre o porquê de tudo ser como é. Neste ponto, a compreensão da vida se torna mais sistêmica e por vezes intelectual demais, afinal temos que juntar nossa energia de novo em nosso eu, mas dessa vez para integrar tudo que foi vivido na exuberância de existir até aqui.
Inverno - Capricórnio, Aquário, Peixes: transcendência
Quando se conclui um aprendizado e o ser se prepara para recomeçar
O solstício de inverno chega cheio de festas e comemorações - antigamente se comemorava a fartura do ano nas festas da Saturnália, assim como em outras festas nos dias que circundam o solstício. Este ponto da vida corresponde à velhice, como estágio final do desenvolvimento humano e uma forma de comemorar tudo que foi vivido até aqui. O ciclo anual anuncia um fim e um começo: é a noite mais longa do ano, mas é a partir daí que a luz começa a retornar, só há motivos para comemorar. O inverno pode ser severo, mas a esperança de um novo começo é mais e a vida segue com recolhimento, junto da natureza que adormece e se recolhe para nutrir o solo para um futuro semear. Em Capricórnio sentimos a chegada de um signo de frieza e cálculo do que é cada coisa, sentimos uma necessidade de fazer o saldo do ano e às vezes da vida, com um tom muito soturno e frio de medir cada conquista - aqui a alma se assemelha à natureza e pede um certo ceticismo, um certo conservadorismo. Quando chega o signo de Aquário já começamos a sair dessa postura e entendemos que precisamos juntar forças para, unidos, seguirmos mais fortes. Já começa a se pensar no futuro e como será de novo o recomeço de tudo, como a natureza irá daqui a pouco nos puxar de novo para renascer, crescer e viver a vida pulsante e rica novamente. Começamos então a sonhar, já que é a chegada do signo de Peixes, além de reunir os peixes que sobraram do inverno e qualquer pouca coisa que estava no estoque para alimentar a todos igualmente. Existe mais restrição e união, mais preces e esperança de um amanhã melhor, mas existe também uma sensação de fim: dos alimentos, da fartura, do inverno. Aqui a esperança anuncia a chegada (em breve) da boa nova e de um novo ciclo da vida. Amém.





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