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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A metamorfose do eu na experiência plutoniana

(e a descoberta do Self)

Um dos pontos mais desafiadores para a consciência encarnada em sua trajetória de vida, é a experiência plutoniana, em suas diversas ativações, sejam em elementos estruturais do mapa natal sejam em trânsitos e progressões no momento de vida. Isso porque a ativação de Plutão na vida pessoal costuma ser um estágio em que destruição e reconstrução do eu surgem entrelaçados à perda total da identidade, do que se conhecia de si até então. Há junto a Plutão elementos na experiência de vida que surgem como perda, abismo pessoal, descoberta de precipícios que nunca haviam sido imaginados e uma travessia no deserto da alma, que mais parece um processo de metamorfose, da lagarta à borboleta. Uma travessia de encapsulamento no casulo do eu, após uma desidentificação total com o passado de si e uma busca por reconstrução da identidade individual a partir do zero. Um processo que, apesar de extremamente doloroso, é libertador e lumínico, para o progresso da consciência. Um processo em que o eu só se depara com o saldo positivo de todo trajeto, após concluída toda a travessia, nunca jamais antes disso.


Afinal, a alma sobreviveu à morte em vida ao sobreviver a Plutão.


Hades|Plutão e a riqueza das profundezas

Perséfone, a romã, a inocência perdida, o inverno na Terra


Na mitologia grega, o mito mais associado à vivência plutoniana é o mito de Hades, Perséfone e Deméter, uma história que traz uma alegoria ao surgimento das quatro estações do ano e suas mudanças climáticas. Mas, para além disso, esse mito fala da caída ao precipício, da travessia de menina à mulher em que vive a bela Perséfone, ao se deparar com Hades (Plutão) e sua obsessão por ela. Um traço típico da vivência plutoniana, a paixão obsessiva, é também um dos componentes emocionais de quando Plutão está sendo ativado no mapa natal. Esse traço, que surge pontualmente ou de forma perene na personalidade, ativa no eu a saturação do desejo, dentro dos processos internos e das experiências externas. É o excesso de amor que vira desejo extremo e que chega ao auge de consumo do seu objeto afetivo, a ponto de saturar e desgastar o amor tornando-o por fim em desprezo. É o tudo e o nada do amor ou do tudo ao nada afetivo. O excesso de paixão vivido de tal forma (obsessiva), que leva ao total esvaziamento do sentimento - isso sim se pode dizer que é a experiência plutoniana vivida na carne, na pele, na alma.

No mito, Perséfone é raptada por Hades, o deus do submundo e mundo dos mortos. Lá ela passa pela transformação de menina a mulher de Hades e deixa sua mãe Deméter em desespero, com a perda da filha amada. Deméter é a deusa da agricultura e resseca a terra com sua dor. Negociando com Zeus, Deméter consegue que a bela Perséfone volte para seu lado, mas não sem que antes sua filha coma da romã oferecida a ela por Hades, vinculando-a assim eternamente ao submundo. É dessa forma que, em meio a esta negociação, Perséfone passa a viver seis meses em cada mundo, na primavera e verão está sobre a terra junto à mãe Deméter, que, feliz, permite o renascimento da natureza. Nos outros seis meses, ela volta ao submundo vivendo como mulher de Hades, deixando sua mãe em total tristeza e abandono dos cuidados com a terra, o que causa o adormecimento natural do outono e inverno. Essa alegoria nos permite expandir esta vivência da natureza à vivência plutoniana pessoal e humana, ao entender que somos um eu em travessia no inverno da alma, ao experimentarmos o rapto de Hades através de experiências plutonianas no nosso mapa astral.


Neste mito, podemos tirar muitas metáforas e alegorias com a vivência humana dos processos plutonianos, uma delas é o significado de riqueza a que é atribuído a Plutão. Sim, é nas profundezas da Terra que encontramos as maiores preciosidades da natureza, sejam as pedras e cristais preciosos, sejam metais nobres, sejam pérolas no fundo do mar, seja o próprio petróleo, que (apesar de complexo em si) é fonte de recursos para diversos construtos humanos. Isso sem falar do próprio processo de despertar da semente, que cai no profundo da terra e germina, brota, nasce e cresce nutrida pela fertilidade da mãe natureza. Aqui podemos associar as profundezas com a dor dos processos plutonianos, que espremem, constringem, esmagam e descascam a consciência humana até despertar o melhor de sua essência, transmutando aquilo que estava adormecido em semente e a acordando para o florescer em sua melhor versão. Um florescer no mundo em outro formato, para além do que se conhecia ali na semente. E essa é uma grande lição dos processos plutonianos: é na destruição do antigo eu, no enorme desconforto das intempéries da existência, é ali mesmo, no pico de dor de existir, que surge (no descascar da personalidade) o Self, o cerne, a preciosidade do eu.


O abismo: quando o eu perde tudo

O abismo desconhecido, o submundo, a perda, a dor

Perséfone (que até então se chamava Cora) estava colhendo flores quando o chão se abre aos seus pés e dali surge Hades, que a captura e a leva (sem explicar nada) para o abismo do submundo, algo que ela nem sequer sabia existir. Neste ponto do mito, vemos o processo plutoniano em seus estágios iniciais, que é quando somos surpreendidos em nossas vidas comuns com o turbilhão de acontecimentos à lá Hades, que surgem como um abismo aos nossos pés. O estágio inicial vem como um vórtice de situações desesperadoras e evocam o pior do emocional humano. É neste ponto que se evidencia o transbordar ao redor de todos os tipos de pensamentos, emoções e reações físicas sombrias, além de atitudes desmesuradas, ativando com isso toda a sombra adormecida, nesse eu que pode sintetizar este momento como “o desespero de existir”.


Esta fase é onde e quando não sabíamos que seria possível sentir tantas emoções, as mais densas humanamente possíveis, aqui vale considerar que nem só de amor vivem os seres humanos e ninguém melhor que Plutão para ativar no mapa astral os piores sentimentos humanos. Pois é na perda, na solidão, na destruição do mundo que se conhecia até então, que são evocados na psique humana toda a sombra adormecida: o modo sobrevivência em sua versão mais instintiva e animal. O que diferencia um ser humano mais evoluído de um menos é somente o que ele é capaz de fazer com o que sente, se (se voltando para seu íntimo) destrói em si tudo o que gerou esta dor ou (voltando-se para fora) destrói no mundo tudo que ele acha que gerou esta sua dor.


O descascar da personalidade (a carta O Enforcado no tarot)

Caronte, o Tártaro, o esqueleto que descascou o eu


Há um outro símbolo extremamente vinculado aos processos plutonianos em vida, que é a carta do tarot O Enforcado: um esqueleto dependurado pelo pé, nos confins do submundo. Pois para o mito, é assim a trajetória de quem adentra esse (sub)mundo. Primeiro, chega o barqueiro Caronte (este é o nome do satélite de Plutão, que forma um sistema binário com o planeta, por ser quase do mesmo tamanho que este, Plutão que hoje é conhecido como planetoide, apesar de ser para o simbolismo da astrologia um planeta tão contundente como qualquer outro, ou mais), que então o leva para atravessar o pântano Tártaro. Nessa travessia o ser que chega inteiro e bem vestido vai descascando. Primeiro se vão as roupas, depois as vestes intimas, depois, nu, o ser perde a pele, os músculos, os órgãos até ficar só a carcaça óssea. Ele então chega ao ponto mais ínfimo do submundo e paga suas dividas cármicas ali, dependurado pelo pé (esta carta também está associada a Saturno).


Aqui neste estágio, vemos a experiência plutoniana chegar a seu auge, junto ao turbilhão de fenômenos destrutivos e reações sombrias do ser que, atrelado e identificado com sua personalidade e atributos agregados ao ego, advindos de uma vida inteira, se vê acuado e na defensiva. Em meio a isso, só há perda, só há descascar dos enfeites do ego, só há destruição. Quanto mais o ser se contorce, se debate contra a realidade que se despedaça aos seus pés, mais o rebote das paredes da concha espremem o grão de areia e machucam a ostra. É ruim para todos, principalmente para o ser que vive a travessia plutoniana, mas não raro é destruidor para todos ao redor, para as conquistas mundanas, títulos, relacionamentos e saúde. Plutão costuma passar e deixar um rastro de destruição ao redor, um strike na vida de quem vivencia a travessia.


O cerne: quando não sobrou mais nada

O centro, a chama imortal, o self

Ali como esqueleto, o ser chega ao ponto zero, ao centro, ao ponto mais imortal, ao cerne de si, à chama que nunca se perde, ele chega ao momento exato em que (na natureza) a semente se encontra adormecida no escuro e no frio da terra. E é exatamente a partir daí que só há um caminho a seguir: romper sua casca e germinar, saindo na superfície da terra em busca de luz. Chega então ao instante em que a ostra só tem uma coisa mais a fazer, com a dor que lhe foi causada pelo grão de areia: torná-lo pérola. É o mesmo quando, sob pressão e calor, o carbono só tem um caminho a partir dali: se tornar diamante. É bem como quando a lagarta, no mais apertado de seu casulo, só tem uma coisa a fazer: tornar-se borboleta. E assim é neste mesmo ponto, quando o ser, que um dia se entendeu como (um pacato) humano, só tem um caminho a seguir: tornar-se senhor de si, empoderar-se, bem ao encontro com seu cerne, seu centro, seu self, sua chama imortal, sua melhor versão. Ele então, desnudo de tudo que o compunha, de todos os enfeites de sua personalidade, de todos os atributos que o sustentavam em sua vida, quando o rei está nu para o além mundo, só quando não resta mais nada, só assim, neste ponto irreversível, então o ser se ilumina.


A reconstrução do eu 

A partir do ponto zero, o esqueleto se reconstrói

O ser chega à estaca zero, ao ponto de maior desconstrução de si, de sua identidade, personalidade, lugar no mundo, de todos os enfeites do ego: ele chegou ao núcleo de sua existência imortal. Nesse encontro, ou melhor, reencontro consigo mesmo e sua essência, é dali que o ser pega impulso de se reconstruir. Do zero, do fundo do poço, da morte em vida. É neste momento em que, um dia ele acorda diferente, se sente diferente, como se a chama interior estivesse finalmente acesa, acordada, desperta. É o Self. Neste estágio o ser sente um alívio, depois dos sustos de toda a travessia no deserto, um belo dia ele acorda diante do oásis. Mas na verdade é o oásis da consciência, um despertar da chama interior, da alma em sua verdadeira essência, de todos os potenciais da semente. A partir desse ponto, o mito nos remete ao esqueleto dependurado que sai dali e vai vestindo novamente todas as camadas que o compunham. Não do mesmo jeito, não com a mesma alma, mas com uma chama interna em reconstrução. A personalidade vai então se reconstruindo camada a camada, músculos, órgãos, pele, vestes íntimas, roupas, acessórios e vida. O ser volta a ser humano e respira o ar fresco da nova vida. Ele sente que morreu, ele sente que renasceu, mas dentro da mesma vida: uma metamorfose em vida.


Eu não sou mais o mesmo: a metamorfose e o retorno à vida

Lagarta->casulo->borboleta, a adaptação ao mundo a partir de um novo olhar

O ser humano que se transformou durante o processo plutoniano e renasceu em vida não teme mais nada, ou quase nada, afinal ele já morreu e da morte ninguém escapa: ele conhece o caminho. Há algo de imortal no olhar de quem sobrevive aos processos plutonianos, há uma paz e uma força interior que não treme no primeiro susto. Há algo de samurai, de guerreiro viking, de sabedoria estoica, há algo de força de lampião e Maria Bonita. Há uma maestria impregnada na alma de quem conhece a travessia no deserto de uma vivência plutoniana. “Ninguém me mata mais, sou senhor de mim. Não é uma ofensa que irá me abater agora. Aliás, nem ofende mais. Eu sou mais eu.” Aqui o ser que se redescobriu humano, demasiado humano, agora renasceu em vida e o que mudou foi o olhar. Do esqueleto ao ser vestido de persona, agora veste cada peça de sua personalidade com propriedade e sabendo que são somente vestes, enfeites, penduricalhos do seu eu central, que é quem é imortal. E, no fim, fica a consciência de que, nem eu nem você iremos levar nada deste mundo, para o outro mundo. O eu então se encontra mais forte e senhor de si.


A travessia plutoniana, por incrível que pareça, valeu à pena.



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A história de Hades e Perséfone é um dos mitos mais famosos da mitologia grega e explica a origem das estações do ano.


O Rapto de Perséfone

  • Quem eram: Perséfone (também chamada de Cora) era deusa da primavera e da agricultura, filha de Zeus e de Deméter. Hades era o deus do submundo e irmão de Zeus. 
  • O sequestro: Apaixonado por Perséfone, Hades obteve a permissão de Zeus para raptá-la. Enquanto ela colhia flores em um campo, a terra se abriu e Hades emergiu em sua carruagem negra, levando-a para reinar com ele no submundo.


A Fome e a Tristeza de Deméter

  • O luto da mãe: Deméter ficou devastada com o sumiço da filha. Em sua dor profunda como deusa da colheita, ela negligenciou a terra, fazendo com que as plantas morressem e a fome ameaçasse a humanidade.
  • A intervenção de Zeus: Vendo o sofrimento na Terra, Zeus ordenou que Hades libertasse Perséfone.


O Acordo e as Estações do Ano

  • A armadilha da romã: Antes de partir, Hades ofereceu a Perséfone sementes de romã. Ao consumir o fruto do submundo, ela ficou ligada àquele reino para sempre.
  • A divisão do ano: Um acordo foi feito: Perséfone passaria parte do ano (outono e inverno) no submundo com Hades, e o restante (primavera e verão) na superfície com sua mãe.
  • Explicação mitológica: Quando Perséfone está no submundo, Deméter entristece-se e a terra congela (inverno); quando ela retorna, a mãe se alegra e a natureza floresce (primavera).