Em muitos momentos na vida de astróloga (já são 23 anos atuando), me deparei com clientes que estavam vivendo fortes processos de desconstrução da psique. Como se, em algum plano maior de existência, aquela consciência havia planejado atravessar um estágio de desafios atrelados aos símbolos ali sinalizados no mapa astral. São desconstruções que podem se personificar em diversos formatos, mas (de modo geral) tem a presença do planeta Saturno junto a um outro planeta transpessoal. Seja Urano com seu vendaval arrancando todas os galhos secos da nossa árvore (ou eixo de existência do eu). Seja Netuno diluindo nossa psique até nos fundir com o mundo que nos rodeia. Seja Plutão abrindo precipícios aos nossos pés e nos obrigando a atravessar uma metamorfose do eu. Como os trânsitos transpessoais são muito longos, geralmente duram anos, eles se combinam em algum momento com o trânsito de Saturno, agudizando assim todo o processo de desconstrução que já está em andamento junto aos planetas transpessoais - Urano, Netuno ou Plutão.
O terremoto: Saturno,
construção ou desconstrução?
Conhecemos já, desde a astrologia básica, que Saturno é um símbolo de estrutura no mapa astral, são os ossos, os dentes, as pedras, as rochas, as montanhas, os cristais. Saturno é tudo que enrijece e calcifica, que sustenta e ergue, é o reino mineral em sua forma mais rígida e firme. No mapa natal de uma pessoa, Saturno indica onde foram erguidas muralhas de proteção, assim como o próprio planeta Saturno, que possui seus anéis gélidos e cristalinos, os quais colocam ao redor um arco de proteção de seu interior. Da mesma forma, nossa psique trata de se proteger internamente nos setores de vida onde Saturno bate forte, nas casas, planetas e signos que configuram sua participação no nosso mapa de nascimento. E essa é a grande lição saturnina: em tudo aquilo que erguemos muralhas de proteção ou bloqueamos a intervenção externa em nossas vidas, é exatamente ali onde fomos gravemente feridos em nossa história e preferimos proteger nosso interior frágil da repetição daquela dor.
Mas existe uma segunda atuação de Saturno em nossas vidas, que é quando ele ativa nosso mapa natal por trânsitos ou progressões. Curiosamente, nestas fases, o que vemos acontecer não é construção em nossas vidas, e sim desconstrução. Vivemos Saturno basicamente a cada 7 anos, ativando algum setor do mapa ou vários ao mesmo tempo. Ou, dependendo da organização dos planetas no mapa natal, podemos estar sempre com Saturno ativando um ou outro ponto, nunca nos dando sossego (ex.: mapas em desenho splash, com planetas espalhados desordenadamente por toda a mandala), neste caso, não nos sobrecarregando demais com uma overdose de Saturno, como acontece quando ele passa metralhando alguns mapas e desconstruindo tudo junto ao mesmo tempo aqui e agora por um longo período (ex.: mapas em desenho de feixe, com um aglomerado de planetas em um pequeno espaço do zodíaco).
Quando essas fases do trânsito de Saturno coincidem com a passagem de algum planeta transsaturnino (Urano, Netuno, Plutão) então a desconstrução entra em um nível muito mais profundo e agudo, ao atravessar camadas muito profundas da psique. Essa fase da vida em que se vive tal trânsito, tem a característica de proporcionar um grau muito dolorido de sofrimento, com eventos realmente destrutivos, especialmente se surgir muito cedo na vida, na infância, adolescência ou juventude, antes do retorno de Saturno aos 29 anos. E com isso, também não quero dizer que se acontecer depois dos 29 anos será muito mais fácil, ou que os eventos são menos dramáticos, mas sim que a consciência já ultrapassou estágios de sua estruturação e maturação, e que tornam o eu mais capaz de lidar com tudo o que pode surgir de desconstrução psíquica (e sobreviver bem a isso). O que acontece em uma individualidade, que passa por um trânsito muito duro desses antes dos 29 anos (versão Saturno+planetas transpessoais), é que essas fases passam a desconstruir elementos base de sustentação da psique, podendo desregular de forma estrutural aquela individualidade e como ela se reerguerá posteriormente na vida. Em outras palavras, um trânsito desses muito cedo na vida pode desviar e desorganizar muito profundamente a consciência e redefinir irrevogavelmente caminhos de vida, que de outra forma seguiriam o padrão esperado social e culturalmente.
O furacão: Saturno + Urano
Esse é com certeza o combinado de trânsitos mais leve dos três, pois, apesar de Urano trazer sim desconstrução e fazer uma espécie de faxina geral na vida da pessoa, aqui Urano desconstrói, mas também repõe elementos novos onde ficou um vácuo. A característica mais marcante do que vejo surgir nos trânsitos Saturno-Urano são as quebras profundas com crenças limitantes, o que nos remete à força uraniana, já que Urano surge arrebentando barreiras e limites internos e externos na consciência e na vida da pessoa, desconstruindo componentes que até então pareciam aceitáveis ou confortáveis para a dinâmica total do eu.
Crenças limitantes, relacionamentos cômodos, contextos estagnados, vínculos de dependência, estruturas de vida baseadas na segurança e não no crescimento, hábitos ruins e destrutivos para a saúde física e emocional, tudo isso e muitos outras situações restritivas são sempre os focos de atuação desse combinado de trânsitos ativando o mapa natal. Ou seja, Urano retira e desconstrói as limitações de modo geral e, com a parceria com Saturno, ele torna isso um tanto doloroso ou negativo em alguns momentos, embora sempre haja aqui a sensação de estar mais livre e mais leve que antes, ao carregar menos peso e menos associações com elementos restritivos da própria vida. O saldo geral, muito após finalizado ambos trânsitos, costuma ser de libertação e um retomar para a vida de forma menos complicada e menos dependente.
O tsunami: Saturno + Netuno
Essa combinação às vezes pode parecer sutil, porque Netuno costuma ser sutil (porém irrevogável), mas na verdade com a presença de Saturno este é, dos três combos de trânsitos, o que talvez desconstrua mais, justamente porque une desestruturação saturnina com a dissolução profunda netuniana. Aqui a psique vive um período de desorganização das estruturas internas e do universo externo da personalidade, em uma série de contextos em que o eu sente ser absorvido pelo externo, como se as bordas desse eu se fundissem com o mundo. Muitas vezes isso indica um escancarar da atividade mediúnica, paranormal e metafísica, pode acontecer, assim como o surgimento de distúrbios psicológicos, que é um curso onde a psique pode se direcionar, se não estiver bem orientada para saber lidar com a vulnerabilidade do ego nesta fase da vida.
Existe aqui um processo de dissolução da identidade e uma sensação de não ser possível conter o grau de percepção dos cinco sentidos dentro das bordas do eu, como unidade, identidade e individualidade. Nesta fase, tudo que corresponde à individualidade pode se tornar mixado com os eventos, pessoas e situações externas, algo difícil realmente para a construção da psique, que (mesmo se for uma de estrutura saudável) pode dar sinais de psicopatologias, seja melancolia, depressão ou mesmo um grau de esquizofrenia ou paranoia. Aqui as artes surgem como uma solução de expressão do eu, um transbordar para a arte do transbordar das bordas da individualidade, um canalizar para a criação de tudo aquilo que não se compreende ainda, do que o eu interno está vivendo e sentindo. Os canais artísticos são os mais indicados nesta fase, seja música, dança, pintura, escultura, oleraria ou manufaturas e artesanato. Outro canal construtivo são os esportes e movimentos físicos, que otimizam o metabolismo, que pode baixar junto à baixa de centramento pessoal vivido aqui - o corpo físico pode se tornar uma metáfora do psíquico, perdendo tônus muscular e ganhando gordura, perdendo definição junto da perda de definição que acontece com o eu psíquico.
Os vulcanismos: Saturno + Plutão
Essa talvez seja a combinação de trânsitos mais severa e destruidora, pois aqui surgem elementos de desconstrução da psique muito voltados para a negatividade das ações humanas, sejam vindos do externo ao eu, seja do eu voltado para o externo. Em outras palavras, aqui o sombra psíquica do eu acessa o que se pode entender como “o mal” através de eventos que lhe ocorrem de fora para dentro ou de atitudes pessoais sombrias direcionadas a algo externo, pessoas e situações. Nesse ponto me refiro, no pior dos casos, a posssiveis psicopatias e transgressões humanas, sendo acessadas seja na posição de vítima ou de agressor, mas de modo geral sempre sendo acessadas de alguma forma na vida da pessoa que atravessa um trânsito Plutão-Saturno. Aqui os dois planetas mais sombrios e que ativam a negatividade, a perda, a castração, a maldade, a crueldade e as psicopatias, estão agindo conjuntamente ativando o mapa individual, o que corresponde a eventos que possam representar esses mesmos temas na vida individual.
Neste processo podemos descrever todo o trajeto vivido negativamente, como transgressão ou sofrimento de vítima dessas transgressões. Mas se bem vivido e bem digerido, essa travessia pode se tornar um processo metamórfico e enriquecedor, em que o eu entra em contextos densos e os digere positivamente, entendendo cada passo sem ser absorvido por eles, um caminhar que transforma mas não deforma o eu. A metamorfose pode surgir como eventos desafiadores, processo de aceitação e integração de tais contextos, transformação da psique e superação final, bem como a metamorfose da lagarta que vive o casulo e se supera como borboleta, sem negar seu processo vivido. O melhor desse saldo é a sensação de empoderamento e vigor do eu ao sentir (ao final) que atravessou um grande deserto da existência e sobreviveu, sendo por fim transformado e não destruído pela dor (o que é bem possível também, em algum estágio). Não é raro surgirem circunstâncias extremas de sofrimento como acidentes, tragédias ou perdas irreparáveis, doenças gravíssimas ou degenerativas, consumo e dependências químicas de substâncias ilícitas, perdas materiais e humanas, agente ou vítima de crimes, além da morte literal.
Superação
e integração da dor
como única solução
É possível observar então, que são nos trânsitos híbridos de Saturno com um planeta exterior (Urano, Netuno, Plutão) onde são evocados no eu a superação das capacidades individuais e psíquicas em seu grau extremo, extraindo do eu o seu melhor em algum momento da travessia. Muito embora, não podemos deixar de considerar, que muitas pessoas não são capazes de acessar esse grau potente de superação, por motivos pessoais variados. Afinal, são períodos de vida assim que o eu descobre se é capaz ou não de atravessar e acessar essa potência de si mesmo, esse despertar do herói particular e adormecido na psique individual através de um grande teste da existência (ou muitos, em sequência). Há sim uma possibilidade real da individualidade sucumbir aos desafios, alguns nos momentos iniciais, quando toda a vida entra em um furacão de eventos destrutivos. Ou no meio do processo, quando as dores se acentuam e as forças de luta interna e externamente se esvaem, trazendo uma sensação de impotência diante dos eventos. Ou mesmo quando tudo já está em um estágio mais avançado (afinal, os trânsitos transsaturninos duram anos), quando as circunstâncias exigem muito mais força do que aquela individualidade é capaz de sustentar por um longo período - esse sucumbir aos desafios sempre é uma opção realista e estatisticamente possível de acontecer na vida.
Mesmo sendo possível sim, sucumbir aos eventos trágicos e transformadores da consciência individual, há sempre também a opção de se superar, há sempre a opção de se permitir ser atravessado pela dor sem absorvê-la internamente com parte de si. É sempre possível o eu se deixar desestruturar naquilo que precisa ir, seja em seus contextos materiais e externos sejam na psique e personalidade interna. Sempre é possível uma consciência encarnada se descobrir e redescobrir a si mesma em sua potência e potenciais de vida, ao aprender a se despedir de tudo o que lhe limita e impede de ser ou acessar sua melhor versão, seu eu empoderado e confiante de que a vida se renova, depois de uma grande travessia no deserto. E aqui fica a lição final: a vida sempre renasce, sempre pede passagem para um modo de viver melhor e mais leve que antes, sempre existe um oásis em meio a um deserto que parecia infinito. Só o eu que se permite atravessar a dor de existir, é que se torna capaz de conhecer esse oásis de si mesmo.






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