Um dos planetas mais contraditórios do panteão astrológico é Urano, isso porque ele evoca tanto amor como rejeição por onde passa, gerando ao redor um “ame-o ou deixe-o”. Há pessoas que amam sua passagem libertadora pelo mapa e há pessoas que detestam as sacudidas de vida que ele traz, ao movimentar peças base da estrutura de vida e jogar fora a sensação de segurança, tão prezada por alguns. E é aqui neste texto onde pretendo me aprofundar e trazer um pouco de clareza do porquê disso - eu pessoalmente adoro Urano e irei tentar apresentá-lo como o vejo: da melhor forma.
Inicialmente, vemos que Urano é um planeta transsaturnino e transpessoal, o que significa que ele foi descoberto mais recentemente e não faz parte da leitura da astrologia clássica, que se estabeleceu há milhares de anos e utiliza os planetas visíveis a olho nu, do Sol até Saturno. Urano surgiu em uma época histórica muito tumultuada e revolucionária, por volta da Revolução Francesa e das Américas no final do século XVIII, um tempo em que o coletivo exigia mais liberdade, igualdade e fraternidade. Ideais esses que parecem estar atrelados ao significado astrológico de Urano, porque é justamente quando ele passa pelo nosso mapa, que costuma reivindicar uma faxina na vida inteira. Uma busca por autonomia da individualidade perante tudo que a limita, encolhe e a torna dependente do externo.
Em um processo psíquico, podemos entender que o eu finca um eixo interno como referência desprendida de todos os vínculos e assim se sente mais autônomo, sem dependências. E aqui é exatamente onde mora o perigo, que é quando esse desprendimento se torna tão extremo, que por fim a pessoa se sente e se torna avulsa no mundo, sozinha e solitária, após cortar vínculos essenciais junto de todos que eram insignificantes. É neste ponto que podemos observar que, uma dose de discernimento seria a medida certa, e foi o que faltou no processo de libertação uraniana da consciência.
A consciência à frente do seu tempo
Prometeu e o furto do fogo sagrado dos deuses
Um dos mitos mais relevantes para a simbologia da experiência uraniana (aqui unindo o signo de Aquário, a casa 11 e o próprio planeta Urano) é um que não está falando do titã Urano, mas sim o mito de Prometeu e o fogo sagrado. Na mitologia, a simbologia desta história parece ser mais vinculada à vivência contemporânea de Aquário-Urano, já que traz uma associação forte com o processo de agregar o futuro ao presente, apresentando aí o aspecto visionário e prometeico do planeta Urano (experiência uraniana). O interessante é que o mito é tão rico neste aspecto, que inclusive já agregamos o adjetivo “prometeico” ao nosso dicionário contemporâneo, significando aí alguém que tem uma visão do futuro ou premonições, insights e premeditações de algo que está por vir. Isso já nos diz muito sobre o que representa Aquário-Urano na simbologia astrológica, que é aquele (ou tudo aquilo) que agrega informação do futuro para o presente, nos guiando e nos conduzindo a este futuro.
No mito, o titã Prometeu (“aquele que vê antes”) é irmão de Epimeteu (“aquele que vê depois”) e esses nomes são simbólicos de o que cada um veio realizar no mundo. Prometeu se apresenta aqui como um visionário, que resolveu moldar os seres humanos a partir do barro e com isso, para proteger a humanidade das calamidades, entregou aos humanos algumas das ferramentas que os deuses possuíam. Aqui é onde entra o seu heroísmo e também sua perdição, Prometeu ousou roubar o fogo sagrado dos deuses e o entregou à humanidade, permitindo assim o crescimento e desenvolvimento de aspectos civilizatórios necessários à sobrevivência humana. Mas não sem ser punido pelo rei dos deuses, Zeus, que o condenou a ficar preso no topo do Monte Cáucaso, onde uma águia vinha comer seu fígado (que então se regenerava) diariamente. Aqui vemos muitos símbolos uranianos, os quais podemos aplicar à vivência pessoal e humana, um deles é a regeneração. Sim, uma vivência de Urano no mapa pode representar o impulso de vida, a autonomia que faltava para aquela consciência se regenerar, se reconstruir ou se reformular em sua psique e na reconstrução de sua vida.
E aqui vem uma reflexão curiosa sobre os dois planetas que regem o signo de Aquário, Saturno tem a regência clássica e Urano a regência na astrologia contemporânea. No mapa natal, Saturno nos indica onde como e quando erguemos muralhas para nos proteger da dor, é onde fomos feridos e construímos (vide os anéis de gelo de Saturno) uma couraça de gelo, fria e petrificada para afastar os agentes dessa dor particular. Se ele nos indica onde há barreiras em nossa vida individual, o trânsito de Saturno já nos traz as quebras das barreiras, as desconstruções e onde a foice saturnina corta em nossa vida algo que está sedimentado. Por outro lado, vemos Urano na regência moderna de Aquário, que no mapa natal possui o significado e representação de onde como e quando rompemos estruturas e limitações, é onde (na nossa personalidade) há a nossa porção rebelde e revolucionária. Inversamente a Saturno, quando Urano ativa nosso mapa por trânsitos, há uma grande chance de a individualidade passar por um processo de regeneração da psique e do estilo de vida, uma espécie de recomeço e redescoberta da autonomia do ser, em uma versão mais leve e livre de elementos destrutivos da vida, que poderiam ter estado ali até então, limitando os movimentos do eu.
Faxina geral na alma e na estrutura de vida
Crenças, limites e segurança vão pro espaço
É aqui que aprofundamos esse entendimento de como funcionam as vivências e os trânsitos uranianos em nossa vida. Quando Urano passa, ele revoluciona. Sim, é claro que ele desconstrói, mas não no sentido saturnino de quebra de estruturas rígidas. Urano vem e traz libertação, ele rompe com as amarras e vínculos de dependência, com situações estagnadas, que estão ali confortavelmente evitando a expansão da consciência. E aqui é muito importante distinguir a desestruturação saturnina da uraniana. Saturno é estrutura, é lei, é regra, é alicerce, que sustenta e define no melhor dos casos, mas é restrição e delimitação de até onde se pode crescer no caso negativo. Quando a experiência saturnina vem, desestruturando a vida, ela rompe com esses alicerces, com os eixos de sustentação, com tudo aquilo que se construiu de bom também, não necessariamente somente com o que está defeituoso em nossa estrutura de vida. E é por isso que Saturno é tão negativo, na teoria e na prática, tanto na astrologia antiga como na moderna. A experiência saturnina na vida soa como castigo, mesmo que não se tenha culpa, soa com punição, muitas vezes extrapolando os limites do humanamente saudável.
Já a experiência uraniana tem outros moldes e se personifica na vida de forma totalmente diferente da experiência saturnina. Pois Urano tem um ar revolucionário, desbravador e desapegado. Aqui a consciência se depara com um certo empoderamento de si e de seus atributos, de seu eixo interno. O eu se vê diante da liberdade e autonomia perante a sua vida, com um olhar para o horizonte (para o futuro), em que ele enxerga possibilidades de ser mais livre - ao invés de se sentir punido pela vida, como é o caso da experiência saturnina. A desconstrução uraniana segue uma linha muito libertária para a psique individual, onde ela desconstrói elementos limitantes e já repõe imediatamente novos elementos, que ali representem autonomia e liberdade. Por isso que aqui cabe o título de faxina da vida inteira, pois podemos associar poeira, sujeira e entulho com tudo aquilo que empoeirava, sujava e estava sendo acumulado no eu e sua construção de vida: vínculos por segurança e não por crescimento, contextos estagnados e limitantes, hábitos de dependência e restritivos para a liberdade de movimentos individuais e etc. Afinal, após uma grande faxina sentimos não só um ar de limpeza, mas também de leveza e recomeço, como se a vida estivesse nos dando uma nova chance de começar do zero, uma perfeita alegoria da experiência uraniana.
O olhar prático diante da existência
Apegos, dependência e vínculos limitantes (ou nem tanto) são excluídos
É… neste ponto é onde podemos ver um exemplo de um efeito mais drástico e exagerado da atuação de Urano faxinando a vida pessoal, que é quando e onde ele entende que cortar limites e vínculos de dependência, equivalem a excluir praticamente todo mundo que participava da sua vida. Não tem nem como defender nem disfarçar esta distorção da energia uraniana, esse extrapolamento do eu livre para o eu excessivamente libertário, em que a pessoa personifica muito mais o mito do titã Urano do que o do titã Prometeu.
No mito de Urano, ele, filho e marido de Geia, abominava seus próprios filhos e os engolia assim que nasciam (uma história péssima da mitologia), mas que sinaliza mitologicamente o símbolo da castração e da foice saturnina, em que Urano foi castrado pelo filho Saturno, que por sua vez repetiu a história do próprio pai e (da mesma forma) foi castrado pelo seu filho mais novo Zeus. E é por isso que aqui muitas vezes, a experiência uraniana é detestada por aqueles que entendem e sabem que Urano pode sim extrapolar o ego individual e sair castrando simbolicamente as pessoas. Cortando, excluindo e rejeitando inclusive aquelas que podem ter um papel extremamente importante na sua vida, que são os vínculos valiosos: familiares, parceiros amorosos, amigos leais e parcerias positivas de vida. Muitas vezes, o gatilho do corte é uma pequena falha, um equívoco perdoável, um erro aceitável no curso da vida das relações. Mas aqui, Urano ativando o mapa pode significar um corte definitivo, que para o eu representa a última gota d’água, a qual separou duas pessoas - isso realmente pode acontecer e nem sempre é um corte feliz.
O entendimento da lei da atração: viver a partir do eu futuro
O eu do futuro sendo construído e agregado ao eu do agora
Neste ponto, podemos voltar (felizes) ao mito de Prometeu e o roubo do fogo sagrado dos deuses. Podemos trazer também um símbolo que representa uma ferramenta muito contemporânea e ligada ao nosso mundinho atual, cibernético e globalizado, das redes sociais e smartphones: a difusão do tema da lei da atração. Sim, curiosa e divertidamente, esse tema é uraniano. No roubo do fogo sagrado dos deuses, Prometeu (aquele que vê antes) resolveu ajudar a humanidade, como coletivo incipiente ali no começo dos tempos. Aliás, ele criou os humanos a partir do barro e os moldou esteticamente parecidos aos deuses do Olimpo. Insatisfeito, resolveu que a humanidade seria à imagem e semelhança dos deuses e que iria trazer também o fogo como ferramenta de proteção, sobrevivência e desenvolvimento para a civilização humana, que estava agora nascendo em suas mãos. Não pensou duas vezes, ele foi lá e fez. Agiu inclusive de forma bem uraniana, minimizando os riscos para si e para todos. Mas ali, neste ponto, podemos entender que ele fez o que sentiu que devia, agiu na melhor das intenções e ajudou sim a humanidade. Afinal, ela deu um salto de desenvolvimento após receber a ferramenta fogo (e aprender a lidar com ela), tornando-se, com o tempo, de tribos a aglomerados humanos, depois núcleos de povoados e posteriormente em civilização, até chegarmos ao que somos no dia de hoje. Nós humanos agradecemos muito à ousadia de Prometeu.
É assim que podemos mesclar essa ousadia mitológica da vivência uraniana (em sua melhor versão), com o entendimento sobre a atual difusão da lei da atração. Primeiro lembremos do aspecto visionário em que é ensinada a base do mecanismo da lei da atração: a consciência se visualiza como gostaria de estar vivenciando o seu futuro e começa a trazer para o agora a experiência, que em princípio está só na mente. Ao se ver em um cenário futuro e hipotético, um cenário ideal e próspero, onde se realiza o melhor dos mundos na vida real, a partir daí, em seguida se aplica o mecanismo da lei da atração, que é justamente forjar (moldar com fogo) a realidade do agora, como já sendo vivida exatamente como foi imaginada, pensada, desenhada na mente. E isso é pura versão positiva da experiência uraniana. Pois Urano, ativando o mapa natal por trânsitos e progressões, ativa na mente essa propriedade de se ver em cenários ideais e hipotéticos e ir fazendo o download dessa imagem mental na realidade do aqui-agora. É como se o eu do agora fosse aos poucos absorvendo em suas células o futuro, que ele idealiza e no qual se visualiza. Ele vai se vendo e vendo o mundo ao redor se movimentando e se tornando aos poucos um concretizar de seus sonhos, um eu do futuro sendo agregado ao eu do agora. E nada é mais visionário e prometeico que isso, concorda?
O eu que fica diante de si em sua versão otimizada
Outro ponto valioso da lei da atração é saber exatamente o que se quer. Isso mesmo, saber o que se deseja, o que se quer para a própria vida, se ver precisamente dentro dos contextos sonhados e acreditar que é possível realizar tal sonho: essa é uma ferramenta típica de Urano. Outra é se permitir. Se permitir ser feliz, se autorizar a colocar na vida concreta o melhor dos mundos hipotéticos, esse é outro aspecto que mescla lei da atração x experiência uraniana. Porque afinal, ninguém realiza um sonho no qual não se vê nele, no qual não se vê vivendo o sonho, muito menos no qual não se autoriza a que essa realidade se concretize. Ambas as coisas, são uma master class de Urano. Pois ele é o planeta regente moderno de Aquário e trabalha na polaridade Leão-Aquário, ambos signos que, tanto se permitem viver o melhor dos mundos, em sua vida concreta, como se permitem continuar sonhando e indo além, nunca deixando de visualizar o futuro cada vez melhor para si e para os seus, incluindo aí a humanidade inteira. Outro passo definitivo para atrair o futuro, é ver o caminho a se percorrer até o sonho tão almejado, que é uma extensão das habilidades uranianas de se visualizar dentro de um futuro hipotético. Saber como se conduzir e que estrada percorrer até o cenário ideal, é outro traço da experiência uraniana e das técnicas ensinadas popularmente pela lei da atração.
Viver o aqui-agora desprendido das âncoras que o compõem
A capacidade de acessar o agora eterno preenchido de possibilidades
E “at last but not at least” vemos aqui a cereja do bolo de toda a reflexão sobre os temas uranianos, na vida e na experiência uraniana: a capacidade de estar totalmente presente no aqui-agora, de uma forma construtiva, em que a consciência está tão em seu eixo, tão lúcida, tão plena, que consegue extrair do agora o melhor que ele pode ofertar. Mais uma vez, aqui voltamos à Prometeu e à sua visão prometeica, aquele que vê antes, porque só é possível acessar o futuro, se o eu está totalmente ancorado no agora, a ponto de se desamarrar de tudo o que o limita hoje, o tolhe, o encolhe e o restringe. É o eu pleno do agora infinito, mas totalmente ancorado no eixo de seu próprio eu, ancorado na realidade. Ironicamente desprendido dessas âncoras, fincado em si mesmo, mas solto das amarras que o prendem a tudo que se estabelece de fora, ao seu redor. O eu aqui é preenchido de possibilidades, é livre, leve e solto para se recriar a seus próprios moldes, livre para se moldar com a criação de um novo eu e um novo futuro, um ser livre inclusive de si mesmo e tudo o que o compõe no ego atual. É livre para se reconstruir, se regenerar, se remodelar e construir do zero o seu próprio mundo. É na experiência uraniana, que o eu vive toda a potência de si mesmo e de sua capacidade criativa diante da vida.
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Prometeu é o titã da mitologia grega conhecido por moldar a humanidade a partir do barro e roubar o fogo sagrado dos deuses para dá-lo aos mortais.
Quem foi Prometeu?
- Significado do nome: "Aquele que pensa antes" ou "premeditação".
- Família: Filho do titã Jápeto e da oceânide Clímene (ou Ásia), e irmão de Epimeteu e Atlas.
- Aliado do homem: Considerado o grande benfeitor da civilização, ensinou aos humanos técnicas, artes e o uso do fogo.
O Roubo do Fogo e a Criação
- A criação: Segundo o mito, Prometeu e seu irmão Epimeteu distribuíram as qualidades entre os seres vivos. Como Epimeteu gastou todas as virtudes com os animais, Prometeu moldou o homem com argila e água, dando-lhe uma postura erguida semelhante à dos deuses.
- O presente proibido: Para proteger a humanidade frágil e garantir sua sobrevivência diante dos animais e do frio, Prometeu subiu ao monte Olimpo e roubou o fogo de Hefesto e Atena (ou do carro de Hélios), levando a chama aos mortais. Isso permitiu o desenvolvimento da metalurgia e da culinária.
O Castigo de Zeus
- A punição: Furioso com a audácia do titã, Zeus ordenou que Prometeu fosse acorrentado a uma rocha no monte Cáucaso.
- O suplício diário: Uma grande águia (ou abutre) vinha todos os dias devorar o fígado de Prometeu. Como ele era imortal, seu fígado se regenerava durante a noite, recomeçando o ciclo de dor sem fim.
- A libertação: Anos mais tarde, o herói Hércules (Héracles) matou a águia com uma flecha e quebrou as correntes, libertando o titã com a permissão de Zeus.

















