Ao prosseguir com os estudos da astrologia, descobrimos que observar as fases da lua é muito mais do que estudar a dinâmica entre sol-lua, mas sim, que aí encontra-se a chave para a interpretação astrológica em uma escala muito mais ampla e que envolve o simbolismo da interação e ciclos entre todos os planetas no zodíaco. E para além disso, o ciclo sol-lua é um referencial da dinâmica de desenvolvimento de toda a vida, tendo principalmente como referência o paralelo com o crescimento de uma planta, desde a semente cerrada no escuro da terra até seu momento final de apodrecimento e dormência de uma nova semeadura, passando pelos estágios de crescimento, florescimento, frutificação e declínio. Tudo isso encontra-se codificado astrologicamente nos ciclos sol-lua, basicamente, uma alegoria de como se desenvolve toda a existência.
Dentre os significados que podemos compreender no ciclo sol-lua, existe um mais profundo que é a dinâmica entre os princípios masculinos do sol versus os princípios femininos da lua. O masculino se faz conhecer na existência por ser radiante, ser projeção e força, ser expansão yang e a porção elétrica de transmissão de energia: o sol. O princípio feminino já se apresenta como acolhedor e receptivo, introspectivo, magnético de atração pela força yin, um receptáculo que reflete a luz (força) masculina externa: a lua. Sol e lua então interagem no ciclo lunar espelhando na vida o que seria a luz do masculino e do feminino dentro das porções duais de cada coisa na existência. Vivemos em um mundo de dualidade e o princípio dual de tudo se apresenta como luz e sombra, branco e preto, positivo e negativo, projeção e introjeção, extroversão e introversão, elétrico e magnético, yang e yin, masculino e feminino, sol e lua e etc. O ciclo lunar então é o retrato da completude dessa dinâmica e como se expressa em cada estágio.
As fases da lua como alegoria dos ciclos da vida
Para entender e interpretar os ciclos da vida, precisamos primeiramente ter um olhar distanciado, em perspectiva, um olhar mais racional para a figura como um todo da existência, visualizando o conjunto como uma águia no céu, que observa a paisagem completa, para enfim focar no ponto exato (ou fase) onde quer chegar. Nesse método, podemos visualizar toda a trajetória e percurso de um processo inteiro de vida, entendendo que nós humanos também vivemos a curva de ascensão, pico e declínio em nosso desenvolvimento: nascimento, bebê, infância, adolescência, juventude, adultez, terceira idade, velhice e morte. Uma trajetória que nos coloca como igual aos processos de surgimento, crescimento, auge e declínio de tudo e todos na existência. Sábios são os que tomam consciência disso e o utilizam para compreensão e percepção do funcionamento da vida ao redor, sem dramas e sem ingenuidade. Assim fica mais fácil viver e deixar tudo acontecer.
O ciclo sol-lua então, ou melhor, as fases da lua vem aqui como alegoria, fractal dessa percepção de como os fenômenos da vida se constituem, tendo aí um processo corriqueiro e recorrente no céu que nos ensina uma lei e ordem perene da existência: tudo nasce, cresce, triunfa e se degenera a seu próprio tempo. A lua nasce, cresce, se expande e triunfa, declina, se recolhe e adormece todo mês, sem falhar, de forma sagrada, nos guiando no espaço-tempo. Ou, melhor ainda, nos guiando no entendimento sobre a vida de uma forma reveladora, pois no seu ciclo está contida uma sabedoria universal da existência e seu processo de funcionamento cíclico. O ciclo aqui não se repete idêntico ao anterior, mas em uma escala maior, um espiral visto em perspectiva, o que é cíclico é o processo, já os fenômenos são particulares de cada espaço-tempo, assim como a vida acontece única a cada um de nós.
Como o ciclo sol-lua nos exemplifica como funciona o processo de cada coisa da existência, a dinâmica do masculino e feminino e nos ensina a entender a vida desenhando no céu como um fractal dos processos de toda a existência, vamos então entender como cada estágio desse ciclo acontece:
As oito fases lunares
. Lua nova ~> sol-lua a 0°-45° conjunção crescente, dia zero ao terceiro e meio do ciclo lunar | despertar, impulso, instinto, projeção, ativação, espontaneidade, experimentação, propósito
O princípio de tudo, marco zero, o start e ponta pé inicial de qualquer projeto na vida. O grau zero entre sol-lua simboliza o início de qualquer ciclo, as marés de manhã ficam baixas e de tarde altas, assim como a semente está ainda encapsulada embaixo da terra, no escuro, no frio e na umidade, escondida e semeada pela psique humana, mas ainda longe do sol, longe da luz. Este é um estágio antes de vir à luz, de nascer propriedade para o mundo. Aqui a luz da lua é invisível no céu, pois está colada com o sol (entre zero e 45° de distância um do outro) e só aparece junto a ele durante o dia. Neste ponto, a semente plantada, por não ser vista à luz do mundo, ainda pode ser maleável e moldável pela consciência de quem planta, assim como para quem dá o ponta pé inicial de um projeto na vida, está tudo muito no plano das ideias e sonhos. Tudo é muito secreto ainda, mas como todo principiante, a semente tem a sorte de seguir e germinar escondida pelo escuro da terra, aguerrida, ela rompe a casca e vai brotando no sentido da luz, assim como a luz da lua no céu segue crescendo, porém escondida e ofuscada pela luz do sol. Tanto a luz da lua, como a semente que germina, como o projeto que inicia no mundo, todos possuem essa força do princípio e seguem crescendo escondidos ainda, mas decididos a serem vistos em breve no mundo.
. Lua crescente ~> sol-lua a 45°-90° sextil crescente, dia três e meio ao sétimo do ciclo lunar | descoberta, esforço, abertura, ousadia, crescimento, avanço, luta, des-envolvimento
O broto surge na superfície da terra, folhinha, galhinho e raizinhas vão dando o tom do crescimento neste estágio, assim como a lua já aparece de noite próxima ao pôr do sol, só um risco no céu, um sorriso de quem já conseguiu ser vista, embora ainda delicadamente. Neste estágio, o projeto já começa a ser visto, ele já existe no mundo mas ainda está muito no princípio, está discreto e possivelmente desacreditado pelos olhos do mundo. Mas como se não houvesse problema nisso, a semente cresce sabendo que pode ser derrotada por excessos, seja de água, seja de sol, vento, frio ou algo mais forte que ela pode se sobrepor, é verdade. Mas é verdade também que o projeto em seus momentos iniciais não tem a robustez de um já cheio de conquistas no mundo, mas a psique de quem acredita nele e de quem o iniciou não pensa nisso, mas sim que um grande empreendimento um dia já foi um projeto nascendo na mente e no mundo, por alguém aguerrido e preenchido de propósito. A lua aqui dá um sorriso no céu e a plantinha ainda brotando sorri para a árvore e segue sabendo que aquela árvore um dia já foi um frágil broto, crescendo destemido sobre a superfície da terra. O projeto insiste, a plantinha se expande e a lua cresce, a vida segue.
. Quarto crescente ~> sol-lua a 90°-135° quadratura crescente, sétimo dia ao décimo e meio do ciclo lunar | crise de expansão, ruptura, construção e reconstrução, ação, higienização, discórdia, disposição
Uma arrancada de crescimento desponta para a planta que agora já se faz conhecer, robusta e cheia de galhos que crescem no sentido da luz, do sol, do mundo, assim como suas raizes já fortes crescem se aprofundando no escuro da terra, as intempéries dificilmente conseguem se sobrepor a este estágio da planta. A luz da lua chega à um quarto do ciclo e já está forte no topo do céu no sol poente, aqui a lua sinaliza força e impulso de construção no mundo. As pessoas e as marés se fortalecem (de manhã maré alta, de tarde baixa), todo mundo no mundo fica meio irritado, pois aqui sol e lua estão em combate um com o outro, a energia masculina e a feminina não se abraçam nem se entendem, assim como os projetos já encorpados se deparam com as dificuldades da realidade. Há mil impedimentos contra um projeto que busca um lugar ao sol no mundo, assim como a planta já fortalecida encontra as podas e as pragas, a lua ainda não pode ser vista no céu na noite pulsante nem na madrugada solitária. Há irritação e rebeldia no ar, como um reflexo de uma luz da lua ainda não inteira, não plena nem imponente, as marés podem ser traiçoeiras e o jardineiro pode se espantar com a velocidade de crescimento dessa planta, que da noite para o dia se fez crescida, dá-lhe poda nela.
. Lua gibosa ~> sol-lua a 135°-180° trígono crescente, décimo e meio ao décimo quarto dia do ciclo | lapidação, aperfeiçoamento, análise, interpretação, eliminação do supérfluo e foco no essencial, cerne, aprendizagem
Neste estágio a lua ainda não está cheia, mas está quase lá. A plantinha já não é mais uma plantinha e sim um arbusto cheio, prestes a florar, polvilhado de botões. O projeto já se coloca como um empreendimento quase bem sucedido ou está quase em lançamento de um bom resultado para o grande público, está quase. Agora é tempo de lapidação e encantamento com tudo que foi vivido até aqui, mas ainda não está no ponto mais alto da curva, não está na crista da onda, está quase. Se vemos a partir daqui como foi a fase de crescimento da lua, podemos visualizar uma escala ascendente na subida de uma montanha, podemos daqui já contemplar um boa paisagem, mas o topo ainda está mais à frente. Aqui ainda é preciso dedicação, foco, retoques, aprimoramento e paciência, a planta já é quase uma árvore, o projeto quase um sucesso e a lua quase cheia.
. Lua cheia ~> sol-lua a 180°-225° oposição, metade do ciclo lunar, décimo quarto ao décimo sétimo e meio do ciclo lunar | florescimento, exposição, conclusão, iluminação, revelação, excessos, transbordamento, conscientização
Dos lindos botões espalhadas pela árvore (ou arbusto), ela passa a se apresentar como uma planta formada e florida, enfeitada, transbordante de alegria e exibição. No céu a lua está cheia e indiscreta, nas águas do planeta as marés estão transbordando e no corpo humano retemos mais líquido ou temos a tendência ao excesso nos prazeres, na comida, bebida e entorpecentes, um transbordamento da alegria de viver. O sol ao se pôr já nos apresenta a lua iluminada, deixando a noite mais clara e levemente prateada, encantando quem sai de casa para festejar o momento ou só para ver o mundo mesmo. As marés de manhã estão baixas e de tarde altas, mas a todo momento pode haver um excesso de água seja nos corpos ou no humor ou nos grandes volumes de água natural. Neste ponto do ciclo, o projeto é visto e festejado em público, grande público, porque poucos deixam de ir pra rua neste momento. Se tem convite já estou aceitando, senão eu mesmo me convido ou faço de onde estou uma pequena festa. É hora de exposição e conclusão, seja para comemorar ou para redefinir algo que estava oculto, mas se fez conhecer por todos no momento da lua cheia. O mundo de fora se preenche de luz e o mundo de dentro se faz menos sentido, menos sensível. É tempo de iluminação.
. Lua disseminadora ~> sol-lua a 225°-270° trígono minguante, décimo sétimo e meio ao vigésimo primeiro do ciclo lunar | distribuição, frutificação, ensino, transmissão, doação, oferta, recursos, conversão
Neste estágio do ciclo vemos as flores virarem fruto e o sentido de tudo que foi vivido é ofertar ao mundo a semente da árvore que um dia foi semente. Aqui damos significado à jornada que se seguiu até aqui, há recursos, há ofertas, há gratificação por ter recebido tanto da vida. Agora é distribuir os frutos de todo o aprendizado. Já estamos descendo a montanha, mas a paisagem ainda é linda e “na descida todo santo ajuda”, há mais leveza e menos esforço de conquista. Só queremos ofertar nosso melhor e a vida fica assim preenchida de razões de existir, de significado por tudo que se passou. Há gratidão e doação, a maior exigência é não deixar de ofertar os frutos de todo o processo. A árvore frutifica, o projeto próspera e a lua ainda ilumina o céu noturno, menos cheia, mas cheia de luz para nos iluminar.
. Quarto minguante ~> sol-lua a 270°-315° quadratura minguante, vigésimo primeiro ou três quartos do ciclo ao vigésimo quarto e meio do ciclo lunar | crise de introspecção, declínio, introversão, reajuste, desilusão, casulo, transformação, sabedoria
Neste ponto a planta já começa a se despedir do que um dia foi, é o princípio do inverno ou do inverno da alma. Não é necessário haver podas porque as folhas já estão todas no chão ao fim de seu outonar, as frutas já apodreceram e deixaram suas sementes dentro do solo, assim como na vida declinamos naquilo que um dia insistimos tanto, ao reconhecer o ciclo que se finda em breve. No céu, o quarto minguante nos proporciona uma meia-lua no topo do céu ao sol nascente e no ocaso quando o sol está no seu auge do meio dia. As marés são cheias de manhã e baixas de tarde, mas as águas já tendem a ir diminuindo junto da lua e das águas do corpo humano. Os animais que saíam todos da toca na lua cheia, agora tendem a ficar entocados mais tempo, há menos fome e menos fome de se expor no mundo, assim como as festas passam a ser mais intimistas, com menos gente. Aqui tudo tende a se contrair junto do processo da luz lunar, que também se contrai a cada dia, nada muito efusivo é valorizado e o que se quer é se recolher. Os projetos já entram no seu declínio, é tempo de recesso e economia, redução de danos ou mesmo é possível se considerar fechar as portas, assim como planejar uma repaginada na projeção visual, produtos e locação novos, para recomeçar um dia em um novo ciclo tudo novo de novo. Planta, projetos e lua tendem a minguar, a luz vai se apagando até ficar uma penumbra no ar.
. Lua balsâmica ~> sol-lua a 315°-0°/360° conjunção minguante, ocaso do ciclo no vigésimo quarto dia e meio ao vigésimo oitavo dia, marco zero novamente do novo ciclo lunar | finalização, adormecimento, desistência, rendição, encerramento, incubação, despedidas, bálsamo
O fim do fim, assim se traduz este estágio da vida, do projeto, da planta e da lua, que está novamente invisível no céu, porém desta vez ao minguar. Aqui não é recomendado quase nenhum movimento externo, pois tudo tende a não perdurar no tempo e sim a finalizar muito brevemente. O melhor é justamente “tie up loose ends” ou amarrar as pontas soltas do ciclo que se finda, aceitar e desapegar com consciência e gratidão a tudo que foi vivido. Aqui a planta está no alto do inverno adormecida, semente ao chão para um sonho de novo plantio, os projetos fecham as portas e carregam a gratidão de um dia em que tudo isso aqui era mato, depois cresceu e virou sucesso, declinou e chegou ao fim, e assim carrega em si o sonho de um futuro todo novo a ser empreendido, no futuro. A lua invisível no céu anuncia que, sem luz no céu noturno, podemos apreciar as zilhões de estrelas no firmamento, uma via láctea inteira de pontinhos de luz. Como cada um de nós, que um dia se vai, depois de uma vida inteira de experimentações e aprendizados, alegrias e tristezas, conquistas e perdas, aconchegos e despedidas, luz e sombra, brincadeira de criança e lembranças na velhice, um dia viramos estrela e deixamos, com gratidão no coração, um corpo que nos proporcionou toda uma vida de experiências. Fica a todos um adeus ao que já foi e guardado no coração um boas vindas para tudo o que virá.







