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sábado, 4 de julho de 2026

Mercúrio retrógrado para os íntimos (um tratado)




(esse texto estará ainda em reformulação 

por um período além da retrogradação de mercúrio)


……


Oi, bom dia a todos, desde já, já anuncio:


. Mercúrio retrô voltou



E isso não é algo excepcional, a não ser que algum episódio esteja acontecendo na sua vida que seja fora das linhas desenhadas por Mercúrio retrógrado (m.rx para os íntimos). Digo isso porque, se eu e você, formos bem comportados e não descumprirmos as orientações básicas de como nos conduzir durante o período, certamente só iremos quebrar uma ou outra xícara de café que amamos de coração ou aquele computador amigo de todas as horas do nada pode parar de funcionar ou, quem sabe, perdemos aquela aliança de casamento que vale milhares e é um símbolo de status social (ou outras situações legais). Se for só isso, já será uma fase bem tranquila de mercúrio retrô, concordam?


Mas eu anuncio também que aprendi a amar o sabor amargo de alguns alimentos e o ácido do limão puro até me deixa salivando, da mesma forma que aprendi a entender e acolher o atrevido e pueril merc.retrô (m.rx). Ou melhor, aprendi a jogar o jogo dele (nem sempre, nem 100% do tempo, mas já aprendi) e a não duvidar jamais em tempo algum do que poderá acontecer de desafiador durante os períodos balizados por ele no céu aparente. Mercúrio retrógrado tem todo o meu respeito, sim senhor.


Digo isso porque, sim, Mercúrio retrô pode ser uma benção.


Sabe por quê? Porque o movimento retrógrado faz tudo que ele rege se voltar para dentro, para a introspecção ou, se for na vida mundana, se voltar para trás, para refazer e revisar. Em poucas palavras: merc.rx proporciona o caos que precede uma nova ordem.


. Na marcha ré da existência (benção ou maldição?)


Então vamos olhar para a vida e ver algumas alegorias: 


O que seria do carro sem a marcha ré?

O que seriam dos passos adiante sem poder voltar alguns passos para trás?

O que seria do progresso sem poder regressar ao passado para reconstruir caminhos?

O que seria do futuro sem o poder de aprendizado das experiências passadas?

O que seriam dos grandes encontros sem os equívocos vividos nos desencontros?

O que seriam dos saltos sem os passos para trás que nos impulsionam para além?

O que seria da consciência sem poder corrigir a si mesma ao olhar para seu interior?

O que seria da vida se não fosse possível repensar o passado a cada novo presente, com a intenção de construir um futuro melhor?

O que seria do progresso na Terra sem as fases de movimento aparente de Mercúrio retrógrado no céu?


O céu espelha a vida, a vida espelha o céu.


Certamente, muito mais problemático seria viver em um mundo sem a possibilidade de conserto dos objetos e dos nossos erros, não é mesmo? “Erros” não, “falhas”. Porque são nas falhas que nos aprimoramos. Se mudamos nosso ponto de vista para nós mesmos, conseguimos enxergar a vida como uma estrada em que eventualmente nos equivocamos em um trecho e é possível rever o trajeto. Melhor assim do que viver em um mundo sem planetas retrógrados no céu ou em uma vida em que não é possível parar e repensar caminhos. E esse aprendizado é puro suco de Mercúrio retrô no céu.


M.rx é uma benção e uma maldição. Pode ser ambos, um ou outro ou nenhum. Pode ser um teste de fogo para nossa consciência e uma provação para a nossa vida, com eventos caóticos pipocando para todo lado, como um dominó que cai e derruba toda a fileira. Mas o que seria da evolução da existência sem as provações, que abrem o espaço interno e externo para a chegada de novas bençãos? Sim, é provável virem os desafios e o caos de repente na vida toda nesse período. Mas, sim, é possível viver um m.rx sem grandes eventos e sem tanta turbulência, caso você saiba se esquivar das situações que geram o caos durante o período (seja bem obediente, viu?). Se eu já aprendi a jogar o jogo do m.rx nesses momentos do ano, é porque todo mundo é capaz de conseguir também e vou explicar aqui o que aprendi. Segue o fio.


. O aspecto filosófico desse aprendizado


De um ponto de vista mais distanciado e objetivo, posso dizer que, aprendi que a vida precisa de uma bagunça de vez em quando, para que as cartas sejam embaralhadas de novo e o jogo comece mais uma vez do zero, com novas cartas dadas. Um jogo novo, uma vida se reconstruindo. E esse aprendizado é o sumo do suco que o m.rx quer que eu e você sejamos capazes de tomar, mesmo amargo ou ácido. Engole ele como shot de tequila se preciso, mas toma.


Aprendi que, não ter tudo funcionando dentro do padrão conhecido, também é um estágio excelente e necessário dentro do processo de desenvolvimento da vida. Um estágio que permite o progresso, não aquele que imaginamos ser uma linha reta ininterrupta e tranquilinha para o nosso ego, mas sim um estágio de ruptura das expectativas, de choque de realidade, de quebra de padrões, que rompe com o piloto automático e nos faz parar tudo e nos perguntar (humildemente) aos próprios botões: 


onde foi que eu errei?



Surge aí um súbito momento de introspecção, autoanálise e de uma reflexão mais profunda e transformadora que o habitual, com possíveis (prováveis) epifanias, insights e saltos de consciência, que elevam a nossa vida a um outro patamar, a uma oitava maior. Um momento abençoado, para quem entende que a vida é progresso, é evolução, é desenvolvimento (isso se nossa consciência individual estiver preparada para enxergar a vida sob essa perspectiva, claro). É assim que entendemos m.rx como uma benção, pois é esse o resultado final de seus desafios e situações atrapalhadas. Tem shot de tequila que acorda a alma mais rápido do que qualquer outra coisa, pode testar.

Dito isso, vamos apresentar o manual básico de sobrevivência de m.rx:


. Manual de sobrevivência (m.rx na prática)


 M.rx estacionário


Vamos começar pelo mais desafiador que é o momento que mercúrio fica estacionário no céu, no primeiro e no último dia da retrogradação. Isso acontece porque ao estar aparentemente imóvel, o seu simbolismo se intensifica de forma negativa, já que imóvel é mais negativado do que andando para trás. Mas não duvide do poder da retrogradação também, que é mais sútil porém irrevogável em sua atuação na vida.


Nesse momento o caos tende a ser mais frequente e generalizado em todos os temas da vida, extrapolando os temas exclusivos do próprio Mercúrio. A vida aqui fica encharcada de imprevistos, mal-entendidos, objetos quebrando, trânsito caótico e os planos saindo todos do script. Quem rege o momento são os plot twist da vida real. A sugestão é esvaziar a agenda e ficar o mais quieto possível. Sem dramas mas sem ingenuidade quanto ao período: 24 horas antes e depois do estacionamento exato de Mercúrio (48 horas no total). Recomendo olhar na internet o momento exato em que ele fica retrógrado ou direto para se resguardar. Juízo, hein.

. Vida prática


.. objetos quebrando e se perdendo:

Unrum, isso mesmo, objetos queridos ou essenciais indo pras cucuias assim do nada. Eles simplesmente saem voando e já era. Resignação à vida se esse objeto foi de valor afetivo ou de suma importância na vida prática. O mesmo acontece com as perdas de objetos, que de repente somem sem deixar rastros. Ou tem também os que estavam sumidos que são achados, amém. O retrô traz o seu objeto amado em 3 semanas também. Confia que ele volta (ou não…).


.. documentos e assinatura de contratos:

Essa é grave… documentação incorreta e com mil retornos para detalhes importantes serem corrigidos. Ou pior ainda, assinatura de contratos que geram grandes equívocos na vida e só serão descobertos no futuro, quando mercúrio estiver direto. Recomendação: NUNCA assine contratos ou faça compras e vendas de grande monte no período de retrogradação. Ponto.


.. trânsito e transportes:

Um dos âmbitos mais afetados e estressantes do período é justo o ir e vir e a movimentação de pessoas a pé, de carro, moto, ônibus, trem, metrô, avião, barco, bicicleta, patinete e todo tipo mais de transporte ou via de trânsito, aéreo, terrestre ou marítimo. Seja prudente e evite os riscos desse deslocamento na sua vida e dos seus. Acidentes graves são reais e recorrentes nesse período. O ponto cego da direção pode se multiplicar e simplesmente não vemos os riscos envolvidos na travessia. A recomendação é cuidado redobrado no período em todos os deslocamentos, vias e meios de transporte. Ah, e se deu tudo certo, então agradece a proteção divina sua e dos seus nesse momento, amém.


.. compra e venda, trocas:

Compras de menor porte também sofrem no período, mas se for inevitável a recomendação é aceitar que no futuro vai se apresentar como algo que não funcionou na vida ou tem alguma falha e será preciso trocar ou descartar. Ou simplesmente ninguém gosta muito daquilo que foi adquirido ou se torna aquela peça que nunca é usada e fica jogada por anos sem ninguém entender o porquê. Já as compras de rotina, é claro que devemos continuar comprando normalmente, especialmente alimentos, por mais que até isso pode nos decepcionar eventualmente, sim. É recomendado também que, na dúvida, não comprar (bem simples).


.. pagamentos e trocas bancárias:

Aqui é bem complicado porque mercúrio rege o ir e vir de objetos, as trocas e as moedas de troca também. Então movimentação bancária, compra e venda e transferência de dinheiro podem ser um nicho de problemática durante o período. Até mesmo o uso de cartões e outros meios de pagamento de pequeno e médio porte são suscetíveis a falhas. E aqui vale a regra: pequenas distrações, grandes consequências. Segue na mesma linha das assinaturas de contrato, a recomendação é pesar leve na compra ou transferência e NUNCA fazer movimentações de grande volume de dinheiro.

.. acidentes leves ou graves:

Essa é extensão dos deslocamentos de maior porte no trânsito, mas aqui pode ser também em casa ou em pequenos espaços, porque mercúrio rege o movimento nos espaços, sejam amplos os pequenos, sejam em meios de transporte seja andando ou junto a pequenos objetos, no m.rx tudo isso pode estar envolvido em equívocos. Mercúrio também rege os objetos elétricos e eletrônicos, então cuidado com eles para não virarem armas perigosas nessa fase de m.rx. A recomendação é só estar mais atento a tudo, sem drama e sem ingenuidade, só isso.


.. desfecho de algo pendente e incerto:

Se alguém está há tempos muito doente, é possível ou melhora súbita ou piora terminal. Se um emprego está com risco de demissão, então agora sim é possível surgir algo que desencadeie o corte, em ambos os lados da contratação de emprego. Se algum relacionamento está em risco de finalizar ou na berlinda, é nessa hora que tudo pode piorar e ser o fim definitivo ou uma repentina solução dos desentendimentos. As coisas na retrogradação mudam de sentido ou se rompem no sentido em que estavam, essa é a regra do m.rx. Então há esperança se for algo duradouro ou positivo, se não então o fim é irrevogável. A recomendação é estar mais cuidadoso com tudo, reticente se possível e aceitando despedidas de modo geral, pois fazem parte da vida.


.. viagens e agendamentos:

Aqui tudo sai dos planos, seja um temporal que surge, seja um acidente ou qualquer outra coisa que de repente faz a expectativa dar uma cambalhota e tudo ter que ser repensado, reagendado e replanejado. A recomendação é bailar conforme a música e ser feliz com o que a vida oferecer ou, melhor ainda, não viajar no período ou não esperar grandes coisas de um agendamento.


.. pessoas e coisas do passado voltando:
Essa é legal: o que parecia sumido retorna, o que estava nos confins do esquecimento ressurge, o que estava distante se aproxima, o passado retorna de alguma forma. Sempre igual e sempre diferente, revisamos e revisitamos coisas, lugares, pessoas e vínculos. Seja no mesmo patamar, seja em uma oitava maior. Seja para retorno permanente, seja para fins definitivos. Recomendação: deixa a vida me levar, vida leva eu… Recebemos os aprendizados e deixamos a vida seguir seu rumo.

.. comunicação verbal e não-verbal:

Essa é a parte mais profunda da compreensão de como funciona o processo de m.rx versus o mercúrio direto e positivo nas trocas de informações. Se mercúrio em seu melhor rege as comunicações, mercúrio retrô rege, digamos assim, a quebra do mecanismo de emissão de informações e recepção dessa informação pelo outro. Aqui Lacan foi preciso ao dizer “você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou” esse poderia ser o slogan de m.rx em termos de comunicação interpessoal. Isso porque há essa ruptura no mecanismo padrão das trocas de mensagens verbais e escritas (que já possui desafios quando está no seu melhor, imagina quando dá defeito durante a retrogradação de m.rx). Nesses momentos, a comunicação não-verbal toma conta da comunicação em geral durante a retrogradação e interrompe qualquer tentativa de a mente tentar organizar racionalmente a fala e se sobrepor aos processos subliminares da troca não verbal entre as pessoas. A retrogradação de mercúrio é um tempo em que a introspecção mental é extremamente atuante e rica de significados, esse é um dos motivos de ser tão abençoada essa época, se soubermos aproveitar e aceitar que será assim. O melhor aproveitamento de m.rx é justamente não insistir em conversas muito informativas ou racionais, ninguém irá captar a sua mensagem direito, então aceita e aproveita em estudos profundos e transformadores a nível pessoal. Cada leitura passa a ser uma viagem interna e rica de outros significados, que vão além da própria leitura em si. A outra recomendação é justamente ficar atento aos sinais subliminares, códigos, mal-entendidos, chistes, piadas, gestos, sincronicidades e sincronizações e etc, durante as trocas, que possam informar muito mais do que está sendo dito, tanto em quem fala como em quem ouve, em todos os contextos. Além disso, o ideal é evitar conversas muito importantes e decisivas para poupar a todos de desgastes desnecessários ou rupturas repentinas por consequência de mal-entendidos.


.. o piloto automático não funciona:

Isso mesmo, e não estou falando só de direção no trânsito, quando você já sabe o percurso e faz tudo automaticamente, aqui é em qualquer contexto. Sabe aquele cafezinho que você prepara sem pensar? Ou o banho que já tem o ritual pronto? Sabe aquele mecanismo automático de algumas tarefas no trabalho e na vida em que fazemos tudo meio sem pensar e já está feito? É aí que m.rx cobra a nossa atenção presente. Isso porque o piloto automático simplesmente dá defeito nesse período ou surge algo inesperado e que intervém no habitual. A explicação aqui é justamente o processo de introspecção, a quebra dos mecanismos padrões do plano mental e a necessidade de presença constante durante a retrogradação de mercúrio. A recomendação geral é estar com a mente atenta e presente sempre, em todos os contextos, em todos os momentos e aceitar que é assim ou senta e chora quando algo der muito errado e as consequências pipocarem na vida. Aceita que dói menos (dica: joga o jogo de m.rx e aceita as suas regras, ponto.).


.. grandes epifanias:

Essa é a mais linda de todas do período, que são as grandes sacadas e expansão da consciência. Eu adoro e sempre recebo com muita alegria essa benção da vida e de mercúrio retrô. Faz muito parte do mecanismo de quebra das comunicações e da introspecção típica do período, como resultado nos voltamos para dentro e ampliamos nossos questionamentos internos, deixando assim espaço para a abertura de consciência a níveis mais elevados de percepção da realidade. Recomendação: é na humildade que recebemos as bençãos da vida.


.. temos livre-arbítrio? Podemos tudo?

Essa é a pergunta que não quer calar e nesse período ainda mais. Somos mesmo donos do nosso destino, do nosso umbigo? Temos mesmo as rédeas da nossa vida e tudo está de acordo com o que queremos? Nosso livre-arbítrio é mesmo super livre? Ou seria o contrário? Você me responde é só aceito respostas durante a retrogradação de Mercúrio, ok?


. Síntese e conclusão de m.rx


Depois dessas infos técnicas e práticas sobre m.rx, podemos entender o impacto revolucionário que surge, ao nos depararmos com nossas falhas ou com os sustos dos eventos atrapalhados do período, e então nos perguntarmos “onde foi que eu errei?”, aí sim estamos recebendo as bençãos de mercúrio retrô… já que é neste instante que descobrimos que não somos invencíveis e nossa humildade é resgatada nos confins do nosso inconsciente, para que atue em nossa consciência presente, no aqui- agora. É quando baixamos a guarda e deixamos nosso ego bem pequenininho para receber as epifanias da experiência. Um momento transformador. É nesta hora que quem toma um shot de tequila é Mercúrio retrô para comemorar o grande feito.


E sigo informando… o sumo do m.rx é ser capaz de aceitar as quedas, entendendo que viver isso faz parte dessa compreensão do todo, de uma visão mais ampla da existência, que nos coloca como uma peça dessa engrenagem maior, que é a vida (com suas leis universais, poderosas, impessoais, contundentes e irrevogáveis). Aceitar Mercúrio retrógrado faz parte do nosso crescimento e de entender que nosso livre-arbítrio não é tão livre assim, pois existe algo maior, uma engrenagem maior que é quem coordena a vida toda. E entender isso é o que permite que o próprio Mercúrio trabalhe em nosso favor e seja uma bênção.


Afinal, é bem como Carl Rogers já dizia, “o paradoxo curioso é que quando eu me aceito como sou, então eu mudo”. Nos aceitar como somos é saber que somos uma gota no oceano, somos consciência em evolução. É um paradoxo mesmo, bastante curioso da vida, que ao nos permitir sermos humanos (e aceitar os possíveis quedas e desafios de m.rx), entendendo que somos imperfeitos e sempre seremos, então aceitamos nossas falhas, equívocos e limitações, é que enfim conseguimos nos superar, conseguimos enxergar um novo horizonte e dar um novo salto de consciência.


E nao há falhas que não pipoquem junto de um mercúrio estacionário ou retrógrado, junto de episódios da realidade que nos apontam para onde o nosso automático não estará dando conta sozinho e exige mais atenção do piloto, da nossa consciência e atenção presente. É nessa lógica que anuncio: então, que venha mercúrio retrô, aprontando todas e nos trazendo todo tipo de presepada. Amém.



(agora eu ofereço uma rodada de tequila para todos nós)

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Luz & sombra dos ciclos de Saturno-Netuno

Em junho de 2020, um cliente (consulente) veio a mim para pedir uma análise de mapa astral completamente diferente e inusitada, criativa. Ele já tinha conhecimento de astrologia naquele momento e queria que eu analisasse 4 anos seguidos de sua vida (2017-2020) em que seu mapa natal estava bombardeado pelos trânsitos de Saturno e Netuno. Bombardeado é a palavra certa, pois parecia um tempo de guerra interna, em que esse tipo de contexto astrológico costuma atuar e sinalizar uma grande desconstrução das bases internas e dos eixos de sustenção da vida. Uma espécie de dissolução do ego, do Eu interno e do mundo conhecido ao redor. Uma vivência transformadora.

Mas o inusitado não foi ele pedir essa análise extensa e profunda, mas criar um texto artístico, inspirado nas análises astrológicas de cada ano. Sugeri então, que fossem divididos entre a versão luz e a versão sombra, de alguém que caminha pelos anos vivendo essa travessia interna de uma vida em dissolução. Em princípio essa ideia deixou ele meio contrariado, já que o que queria mesmo era que o tema abordasse somente a versão sombra. Por fim, insisti que se o texto era meu, eu tinha que dar o meu toque pessoal (claro).

Até finalizar o texto (em que escrevi toda a versão luz durante uma madrugada em meio à pandemia e conclui a versão sombra dias depois) eu não tinha conhecimento do que ele havia vivido, porque era parte da proposta dele eu viver a minha inspiração de forma autônoma e praticamente sem referências. Só me disse que foi um tempo de forte (e densa) conexão espiritual com sua ancestralidade e pediu que o texto se chamasse INVOCAÇÃO.

Como Saturno e Netuno estão agora e já há um tempo no céu do momento juntos e conjuntos, bombardeado nossa vida coletiva, e assim ainda vão ficar por um certo período de tempo, resolvi ler esse texto novamente e sentir se deveria publicar. Tomei um susto, ao perceber que ele fala de vivências universais (arquetípicas), que podem ser aplicadas a qualquer um de nós, em qualquer momento do espaço-tempo, se estivermos também vivendo um contexto astrológico em que Saturno e Netuno estejam juntos, bombardeado nossa vida.

Então resolvi apresentar aqui este texto artístico, fruto de um surto de inspiração minha (o que é bem característico do meu processo criativo) em meio à pandemia:

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INVOCAÇÃO

1° ano

Luz: Neste ponto da caminhada da vida, surge um movimento duplo em que voltar às raízes é, ao mesmo tempo, mergulhar em um passado ancestral e se direcionar a um novo futuro. Um ponto de inflexão da vida, que permite à consciência a percepção de que o tempo é relativo e é no aqui-agora onde tudo acontece. Passado e futuro se fundem, como um canal de compreensão plena de tudo que constitui o presente: um presente. Aqui há um mistério, um desafio à consciência a vasculhar suas raizes, suas heranças, suas dores e delícias de ser e viver a si mesma, encarando tudo que a compõe. Como um ser multifacetado de diversas origens, despedaçadas em centenas de ancestrais, que se unem em um Eu, que agora aqui vive. Um Eu que busca se reencontrar consigo mesmo, ao buscar e juntar todos os pedacinhos de um passado perdido no tempo, em um quebra-cabeças bem encaixado com o agora. É neste ponto da caminhada, que surge uma nova composição de futuro, talvez inesperada e inusitada. Há uma disposição interna de que agora é preciso mergulhar nessas raízes, que parecem tão passadas e tão presentes. Há algo a se romper e algo a se unir, uma contradição que parece fazer todo sentido e sentido nenhum, mas que trouxe uma nova estrada a seguir e um outro horizonte a mirar. Um tempo novo se abre à sua frente, e anuncia que é tempo de escavacar o terreno de si mesmo e encontrar no escuro da noite, uma nova aurora. Mergulhar nas dores e encarar cada uma de frente: um Eu nu que se olha a si mesmo no olho do espelho de sua própria alma e desnuda as suas próprias dores, sem mais medo, porque já não há mais nada a esconder. Surge aqui um novo Eu, disposto a encarar esse despedaçamento da alma, em busca de se recompor (um dia) todo o quebra-cabeças de si mesmo, ao encontrar (finalmente) as peças que lhe faltavam. Assim começa uma nova jornada. 

Sombra: Há neste ponto, um acesso direto ao poder ancestral destrutivo, de tudo que não foi vivido nem superado na raiz coletiva-pessoal, de muitas vidas anteriores ao agora. O que pode levar o Eu a um processo instintivo e inconsciente (inconsequente) de invocar os mortos e tirar do armário os esqueletos de uma realidade paralela, sedenta de vingança ou compensação de todas as dores, que foram enterradas num passado mal-passado. Aqui encontra-se o gatilho da escolha por um caminho que (supostamente) se trilharia tranquilo sozinho e torna-se (à sua revelia) um caminho em conjunto, a toda raiz pessoal-coletiva, sedenta de reconhecimento e honrarias.

2° ano

Luz: Um novo caminho já se abriu e os primeiros passos já foram dados, agora a consciência segue firme em seu novo sentido. Não falta medo nem falta coragem, mas o novo é tão novo que começa a ir descascando essa alma, que segue sabendo que não será um caminho fácil. Por alguma razão, o mergulho para dentro mais parece um mergulho nas águas profundas do mar. Ou mais fundo ainda: no oceano de si mesmo. Um espaço infinito de múltiplas possibilidades e seres ora delicados ora assustadores, que ali coabitam em um meio muito incerto. Há sempre um perigo que ronda e sonda a consciência, o limite de onde começa e finda o Eu, que parece agora se decompor, trazendo uma sensação de fusão com o oceano de águas profundas (por ora turvas). Nesse infinito de si mesmo, surgem muitas dúvidas, incógnitas e mistérios. O encontro com o outro mais parece um delirante encontro com uma versão desconhecida e adormecida de um Eu, que nem sabe mais ser só eu. O outro chega tão encantador, com seu canto de sereia, que desnorteia toda tentativa de se manter são, nesse mundo onde agora tudo parece ser e acontecer em vão. Surge aí uma sensação de fragilidade, que em princípio nem existia, mais agora existe e é tão real, quanto o irreal de um mergulho no fundo do oceano mais profundo do Eu. Mesmo assim ele segue e (de surpresa) chega ao cerne da alma, e descobre que ali é exatamente o lugar em que também se pode brincar com o impossível, criar poderes mágicos, para lidar com todo ser ou susto que surgir pelo caminho. O caminho que não é mais um caminho, mas um mergulho no fundo de si mesmo, e é exatamente lá, onde é possível descobrir as mais belas pérolas, da essência do seu verdadeiro e secreto Eu. E assim atravessa mais uma etapa dessa jornada. 

Sombra: Abrem-se as portas aos infernos, que até então nem era sabido existir. Antes o que seria um mergulho, agora torna-se um afundar em terras movediças, onde não se sabe o amanhã. O tempo parece eterno, na dor de quem cava a cova de um ente querido, ou tão antigo, a ponto de nem se saber de sua existência. Mas que agora se faz aqui (sem remorsos) a cobrar uma dívida, que não era sequer sua. Abre-se um embate: um tempo de busca e fuga do que estava enraizado e foi desenterrado como vivo… em uma realidade do agora infinito (um tempo sem tempo)... um embate ao reajuste cármico ancestral, de incorporação de um passado que se faz presente… versus o Eu que busca estar liberto e viver o seu próprio Eu, sem amarras nem dívidas mal sanadas… É um tempo de dores sem delícias de ser quem se é…

3° ano

Luz: Mesmo ainda nadando em águas turvas, agora é possível chegar (por vezes) à superfície e tomar novo fôlego. Um novo olhar para além e para se deixar ver terra firme ou ser livre logo à frente. Só mais alguns mergulhos (ainda profundos) serão inevitáveis, embora com novos recursos e novos olhares para si e para o outro. Chegou a hora de tomar decisões e findar processos, que já estão saturados de buscas. Soltar bagagens, que não pertencem mais nem ao Eu nem ao momento. São bagagens de outros (tempos e seres), muito antigas, que perdem hoje o sentido que um dia tiveram. Um novo tempo sempre pede novos trajes e bagagens, já que um Eu que tanto viveu, precisa se renovar (um dia) e recomeçar. A bússola interna indica agora um outro norte e um novo destino, para esse Eu tão guerreiro, que agora só quer sossego. Nessa travessia da vida, as turbulências nunca findam, mas sempre é possível chegar mais forte a uma nova tempestade, quando se viveu e sobreviveu a tantas tormentas. Aqui a alma se sente mais sofrida ou abatida, cansada de tanto lutar. Talvez seja momento de reconhecer, que o tempo passa e desgasta um tanto o coração juvenil de um Eu guerreiro. Chegou o momento de dar uma pausa e reconhecer todo o trajeto percorrido, olhar para trás e ver o quanto se ganhou nessa jornada, e olhar para frente com a maturidade de quem carrega menos peso. O tanto que se mergulhou em si mesmo e o tanto que se superou a si mesmo. Pensamentos vão levando à deriva a consciência à terra firme e a se sentir mais livre, com um novo norte. A liberdade nem sempre equivale à situação ao redor, mas a tudo que o Eu foi capaz de amadurecer e reconhecer, que é a própria mente quem liberta a alma de toda restrição inconsciente. E assim, ao fim dessa jornada, abre-se um novo tempo de transição. 

Sombra: Há que se dar fim a toda dor e mesmo quando o poço está mais fundo que todo fundo, há que se ver luz. O fundo é onde não resta mais nada: o que tinha que ser arrancado já o foi, o que tinha que ser destroçado já deixou em carne viva, a alma que segue viva. Mas é justo lá, no fundo do poço profundo, que se pega impulso: o Eu recobra forças de buscar (mesmo que ainda em sonho) a chegar à superfície. Ainda há todo o oceano a se percorrer e toda dor a se superar, mas é tempo de escolhas e retomadas. É tempo de findar buscas e dores agudas, que rasgaram a alma e tornaram a vida menos colorida. Há que se preparar para um novo rumo e um novo norte mais à frente, em terra firme para ser livre. 

4° ano

Luz: Surge aqui um novo norte, como redirecionamento final à jornada que se concluiu há pouco. Assim como um nó precisa unir duas pontas soltas, o novo destino busca ressignificar tudo o que veio à superfície, através dos mergulhos interiores, para assim jorrar esse conhecimento para o mundo. Surge naturalmente um movimento de verter os recursos internos em auxílio externo, a quem chega em busca de ajuda. Todo movimento de mergulho interior não foi em vão (embora muitas vezes parecesse que sim) e agora é possível compreender o sentido de tudo que foi vivido. A vida possui o seu próprio fluxo e permite chegar a sabedoria a quem precisa, gerando misteriosamente um elo entre aquele que muito viveu e aqueles que muito buscam saber viver. Claro que sabedoria não se ensina, mas a sabedoria de quem auxilia um outro, é que dá suporte para que esse outro Eu percorra seu próprio caminho, de encontro consigo. Unir essas pontas soltas, entre um ciclo que se finda e outro que inicia, é entender que o fim e o começo são partes fluidas de um mesmo processo. Saber percorrer essa transição, também faz parte da sabedoria sobre o tempo de cada coisa, percebendo que na natureza tudo é cíclico, e o fim de algo traz consigo o começo de um novo. Mesmo que muito se tenha vivido e muito se tenha sofrido, esse fôlego novo, que surge a cada começo de ciclo, é que mantém uma alma mestra seguindo na vida com o encanto de uma criança. Sempre se guiando e se motivando a deixar tudo seguir seu próprio caminho. Assim mais uma nova jornada se inicia. 

Sombra: Uma alma ferida nem sempre finda o que precisa de fim e nem sempre cura o que já está em tempo de cicatrizar. A ferida se mantém aberta e pode estar sempre purgando o que foi vivido e está antigo no agora. Um ciclo pode anunciar que findou o tempo de dor, mas a alma ferida pode não acompanhar o tempo e viver de lamento, por um outro tempo infinito de dor. Há que se abrir caminho no interno, para ser possível percorrer um novo caminho no mundo. Desatar nós de dores e se permitir unir fins e começos em novos laços, novas aberturas a surpresas e ao acaso dessa nova jornada.


Clarissa Maia
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Fica aqui meus agradecimentos, pela proposta inusitada e pela confiança no meu trabalho (e capacidade de escrita artística), ao excêntrico e genial psicólogo André Feitosa (Andy).

Um abraço.